sexta-feira, 11 de outubro de 2013

O Pintor de Cracóvia

“Não sou responsável do aqui exposto. O copiei diretamente da vida.”

cracovia
Ultimamente tenho tido a sorte de fazer boas leituras. Coincidência ou não, têm caído em minhas mãos livros perturbadores e tocantes. Um desses livros é o Pintor de Cracóvia, que conta a história real de Joseph Bau, um sobrevivente do Holocausto. Durante a leitura o leitor se depara com uma história de guerra, de desumanidade, de injustiça e de miséria, mas também com uma história de força, de luta, de esperança e, sobretudo, com uma história de superação.
Além de contar detalhes de sua vida nas ruas de Cracóvia e os horrores da guerra do princípio ao fim, Bau conta-nos também sua linda história de amor: um amor sem limites, um amor incondicional.
Ele fala carinhosamente sobre Rebecca, uma moça que conheceu no Campo de Concentração de Plaszow, na Polônia. Conta o que sentiu quando a viu por primeira vez, de como se apaixonou por ela e de seu casamento clandestino dentro do próprio campo de concentração. Explica-nos como burlou a segurança para consumar o matrimônio no barracão das mulheres. Fala do medo que sentiu ao ser surpreendido por policiais alemães que puniam com violência qualquer tipo de contato sentimental entre um homem e uma mulher. Narra de forma sensível suas dores, seus amores e desamores.
O que mais me tocou na história de Joseph e Rebecca foi perceber que apesar da opressão e do pavor eles não sufocaram o amor que sentiam. Seus corações estavam vivos e apaixonados, o amor que eles viveram foi muito grande, muito maior que a crueldade do nazismo, muito mais forte que  o medo… E isso foi lindo.
“Nos casamos às escondidas no Campo de Concentração de Plaszow. Celebramos nossa boda no dia de São Valentino por casualidade, porque no campo não éramos conscientes de que era o dia internacional do amor.”
Bau sobreviveu ao Holocausto porque foi trabalhar para Oskar Schindler. Rebecca, que havia sido selecionada para trabalhar na empresa de Oskar, por amor ao marido pediu que seu nome fosse substituído pelo dele. Depois que Joseph partiu, Rebecca Bau foi enviada para Auschwitz, um dos campos de concentração mais temidos. Em Auschwitz a escolheram três vezes para ingressar na câmara de gás, durante as três vezes ela conseguiu uma forma de se salvar.


silencio
O mundo se calou!
Joseph Bau escreveu este poema para Rebecca pouco antes da separação:
La Despedida
Aunque nuestra vida juntos fuera muy corta
Ahora debo partir
Me voy triste y desolado
hacia un destino dispuesto
por estos tiempos desesperados
por un camino sin señalizar
Hacia un destino burlón.
todo está preparado pra darme la bienvenida.
Me voy, pero cuando las puertas se cierren tras de mí
y reine un silencio momentáneo,
cuando el tiempo erosione mis huellas,
no pienses en mi con pesar,
porque atrás dejo muy poco:
el corazón de un poeta chiflado,
unas cuantas cartas, algunas odas dedicadas a ti,
una flor marchita y los sueños que soñamos
sobre los días que pasaríamos juntos,
y planes que, ai de mi, no se hicieron realidad
Recuerda nuestra casa soñada,
la que nunca fue,
tu despacho y el mio?
Querido Dios, por que no puedes ser amable?
Pero si, como predije, las cosas cambian,
y si los recuerdos perviven en tu mente,
piensa en mí a menudo,
sin la pena que ahora nos abate
Nuestros caminos volverán a cruzarse.
Entonces… por qué lloras?
No llores más, nos estés triste…
Porque, mira, yo también resisto…
Bueno, adiós, hasta la vista!
Dame otro beso y otro abrazo
y cuidáte,
mi amor querido y sagrado.
A narrativa de Joseph tinha tudo para ser apenas mais um relato triste, como muitos já conhecidos, mas não é. Sua história de vida durante esse período negro da História tocou-me profundamente n’alma.
Além de nos emocionar com sua narrativa tão sensível, Bau também nos presenteia com vários desenhos de sua própria autoria.
Sobre o autor:
bau
Joseph Bau nasceu em Cracóvia em 1920. Em 1950 emigrou para Israel, onde abriu seu próprio estúdio. Trabalhou em muitos filmes de animação chegando a ser conhecido como o Walt Disney israelita. Morreu em 2002.
** Não sei se o livro foi publicado no Brasil. O título original é Dear Got, Did You Ever Gone Hungry?
A poesia transcrita acima está tal qual encontrei no livro, infelizmente não tenho capacidade para traduzi-la, até porque acho que um poema quando traduzido perde muito de sua beleza e lirismo.

2 comentários:

  1. Oh Day, parece tao bom... mesmo tendo a melancolia presente, que a gente ja espera, deve ter tbm belos momentos.

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  2. Pois é, Nina, apesar de toda a tristeza que um livro assim nos faz sentir, vale a pena, pois é sempre bom conhecer a história de superação dessas pessoas.
    Um abraço

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